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Tradição: Gal & Caetano, Celso & Ronaldo
Paquito
Terra - 12/01/2012
O ano passou, ficam os discos. Ele me deu o CD num dia chuvoso na varanda do museu de geologia, e disse: "Esse disco me salvou". Atrás dos óculos escuros, a satisfação do artista ao contar do seu brinquedo novo de armar e de amar. Ele é Ronaldo Bastos.

O disco é Liebe Paradiso, canções de Ronaldo e Celso Fonseca. Ronaldo - que pode bater no peito e dizer com orgulho que o Trem azul, dele e de Lô Borges, foi gravado por Jobim, e o próprio Tom fez uma versão para o inglês - se anima ao contar da parceria com Celso. Ele, que sempre demorou pra por letras nas canções, falou que aconteceu bem rápido com as melodias de Celso.

Sorte, da safra inicial, foi gravada por Gal, e eles foram em frente. Gravaram três discos com as canções da dupla. Esse novo tem história incomum. Anos depois de lançado, o segundo CD deles foi metamorfoseado, com a ajuda de amigos de todo o mundo - de Milton Nascimento a Goethe - mas é muito Rio, o melhor do Rio.

Ronaldo se tornou conhecido, inicialmente, como parceiro de Milton, e tudo era tão integrado no Clube da Esquina, que ele podia passar por mineiro, mas é profundamente do Rio, e parece ter reencontrado o seu ser carioca com Celso.

Rio solar. Os arranjos do CD abrem janelas pra entrar o sol. Os versos viajam por Liverpool, New York, Bangkok. Cosmopolita Rio. Qualquer lugar é o lugar da alma lírica carioca das palavras de Ronaldo, sem amor com amor. Até triste, solar. Cada canção parece um alento um acalanto, celebrando a vida, até o rock Você não Sacou. Tradição carioca de sorrir. Negação do preciosismo - "O que a rima tem de mais vulgar". Aparente despojamento formal, algo entre a bossa-nova e as canções de Lulu Santos, de quem Ronaldo também é parceiro. Pérolas pop. E aquele impressionismo, quase hai-kai:

Sombra da mangueira
Esconde o sol
E a folha cai

Cada faixa é tão colorida - cores fortes, tons sutis - que um filme entra pelos ouvidos da gente.

Celso canta e toca violão, comanda o som. Aqui o canto-essência de Nana Caymmi, ali o som da voz de Milton, acolá o guo zen de Dado Villa Lobos, cordas de Eduardo Souto Neto, mais Sacha, Kassin, Sandra de Sá etc, sem hierarquizações. Tudo junto pra soar bonito e lírico. Disco de detalhes, coisinhas pra se descobrir a cada audição, folheando o encarte, curtindo as imagens do som e o som das imagens de Antonio Dias, Bob Wolfeson, Cafi & Cia, reais imaginárias, a renovar a canção de Celso & Ronaldo. Tradição Carioca.

Tradição tropicalista. Caetano, disse João Gilberto, é um pensamento. Gal, a voz. No seu Recanto, Gal enreda nas teias da voz e, da voz, chega-se às filigranas da canção. A variedade das canções leva o pensamento de um lugar pro outro, dando cabriolas. Sexo, dinheiro, Jesus de Nazaré, funk carioca, autotune, tensão racial.

Neguinho mostra que, quando a gente se refere vagamente ao outro, estamos nos vendo refletidos. Mas não soa didática, na base que remete à disco-music setentista. Gal e Caetano se reconhecem, transformam-se no que cantam, se amalgamam: cara de um, focinho de outro, máscaras do mundo. Em comparação com a perspectiva mais individual do Cê, o olhar em torno. É um on the Road de canções de Caetano, reestabelecendo Gal na tradição de continuar mudando, acrescentando, como é costume da estética de inclusão tropicalista.

Música eletrônica, sons sobre sons. Poderia ser saudavelmente fim de mundo, não fosse a modernidade de Caetano, reinventando suas utopias diante da realidade. O LP de Gal, Cantar, de 1974, também produzido por Caetano, é um disco de repouso, sombra vespertina, reavarandado, sem pergunta nem resposta, apenas é, caymminiano. Este Recanto é de movimento. Mesmo quando afirma, nos faz perguntar todo o tempo.

O canto sem a exuberância de outrora, sem dengo, ou, pelo menos, de um dengo sutil, e a opção pelas bases e sons eletrônicos, faz deste um disco falso baiano, quase o duro soneto de Drummond. Como "a verdadeira baiana sabe ser falsa", Recanto é profundamente baiano.

O estranhamento vai tomando conta e a gente fica íntimo dele, afetivamente ligados. A voz vem no pé do ouvido, mas não é a bossa pré-tropicalista de Domingo, primeiro de LP de Gal e Caetano, pleno de juventude. Naquele tempo, Gal era a voz feminina que melhor exemplificava o Brasil ideal e possível da bossa-nova, cuja expressão maior é João Gilberto. A Gal tropicalista revelava outro Brasil, também vital, contaminado de realidade, partido. A Gal de agora se lê num país-mundo cada vez mais complexo, perigoso, divino, maravilhoso.

É um canto maduro, concentrado, mais exigente de nossas atenções.
E ela merece.
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