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Retratos de uma dupla
Antônio Carlos Miguel
O Globo - 06/03/2007
Seis anos depois do lançamento de "Juventude/Slow motion bossa nova", disco que fechou a trilogia iniciada em 1994 com o CD "Sorte" e que incluiu em 1997 "Paradiso", a dupla Celso Fonseca e Ronaldo Bastos revê seu trajeto em "Polaróides" (Dubas Música).
Mais do que uma coletânea – já que mistura músicas dos três discos acima com regravações, uma canção inédita e outra tirada de um CD de Fonseca editado apenas na Europa -, esse álbum oferece um resumo do trajeto dessa singular dupla. Apresentado, em 1984, ao violonista, compositor, produtor e cantor, o letrista se surpreendeu com a facilidade com que botou letras nas músicas que recebeu do novo parceiro.

– Às vezes, levo meses trabalhando numa só canção, mas com Celso tudo flui muito rápido. Eu me lembro que cheguei em casa com a fita que ele me entregou, botei no gravador e fui fazendo uma atrás da outra – conta Ronaldo Bastos, que em quatro décadas de carreira, já assinou diversos clássicos da música brasileira, em parcerias com, entre outros, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Edu Lobo, Marcos Valle, Tom Jobim, João Donato e Ed Motta.

Uma das primeiras canções da dupla, "Sorte", seria lançada em 1985, num dueto de Gal Costa e Caetano Veloso, para a abertura do disco "Bem bom", da cantora. Sucesso nas rádios, parceria ser um sinal de... sorte para os dois, que logo em seguida foram gravados por entre outros, Maria Bethânia ("Sei de cor", em 1986) e Zizi Possi ( "Mania", em 1987).

Primeiro disco nasceu por falta de intérpretes
Mas a partir daí começou uma inexplicável seca. Suas canções passaram pelas mãos de muitos intérpretes, que diziam ter adorado, mas acabavam ficando de fora dos discos. Até que, em fins de 1993, Bastos, que na época começava o seu selo, Dubas Música, pegou uma fita com a voz e o violão de Fonseca, e transformou-a no disco "Sorte".

– Na época, eu trabalhava em outro disco meu, "O som do sim", que foi lançado pela Natasha, e sugeri que o nome de Ronaldo também fosse incluído na capa, como um duo mesmo - conta Fonseca, que, hoje, vê defeitos no trabalho de estréia da "dupla". – Penso que tem problemas de voz, algumas canções poderiam estar mais bem gravadas.

Três anos depois, "Paradiso", trazia outra ótima safra de canções, dessa vez com produção e instrumental mais ambiciosos, incluindo participações de músicos como Robertinho Silva (bateria), Nivaldo Ornelas (saxofone), Vittor Santos (trombone), Marcos Suzano (percussão) e Arthur Maia (baixo). Para Bastos, este é o seu predileto, mas foi o seguinte, "Juventude/Slow motion bossa nova", em 2001, que botou suas canções no ar. Principalmente a faixa-título, que foi a trilha sonora de cinco comercias de TV para uma marca de sandália estrelados por Giselle Bündchen.

– No quinto comercial da campanha, tive o prazer de ouvir "Slow motion...." na voz de Jamelão. Ele me disse no estúdio que não sabia pronunciar direito aquelas palavras em inglês, respondi que o que valia era a intenção dele, e realmente ficou ótimo - relembra Fonseca, que também viu o mercado externo se abrir para suas versões contemporâneas do samba e de outras bossas.

Contratado pelo selo belga Crammed (o mesmo que lançou Bebel Gilberto no mundo), Fosenca fez por lá os discos "Natural" (em 2003, no ano seguinte distribuído no Brasil pela Universal) e "River Gauche Rio" (2005, este ainda inédito entre nós) e tem conseguido na Europa, no Japão e no Estados Unidos repercussão para seu trabalho bem maior do que aqui - a exemplo do que também acontece com a carreira de, entre outros, Joyce e Marcos Valle.

Enquanto isso, Ronaldo Bastos segue compondo, com Fonseca e demais parceiros, e tocando a gravadora independente Dubas Música.

– Só escrevo música porque quero cantar, e só faço discos para fazer capas – diz Bastos, que botou sua voz (afinada e de belo timbre) na citação de "A voz do morro", de Zé Kéti, utilizada em "La piú bella del mondo" (canção do italiano Marino Marini incluída no disco "Slow motion" e agora também em Polaróides"), e prepara-se para estrear no palco como cantor.

Ele, Fonseca e a atriz Denise Bandeira divertem-se há meses ensaiando um show no qual cantam por prazer suas canções e clássicos que vão de Stevie Wonder a Tom Jobim
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